Iniciamos uma ronda de entrevistas com os nossos atletas, hoje é com o Ultramaratonista David Cardoso, é natural de Carregal do Sal e aos 34 anos ambiciona ir mais longe…
Olá David, como é que decidiste alterar os teus hábitos de alimentação, porquê Vegan e não Vegetariano?
Num primeiro momento a mudança que dei aos meus hábitos alimentares ocorreu exclusivamente por um único motivo: o bem-estar animal. Após visualizar uma série de documentários bastante detalhados da exploração de animais destinados à alimentação humana, fiquei bastante impactado com as condições terríveis do processo que vigora desde que um porco, uma vaca ou uma galinha entra com vida num matadouro e de como são transformados em carne. São imagens fortes que, no meu caso, foram as suficientes para me fazer mudar a forma de pensar a alimentação e abracei imediatamente uma alimentação 100% vegetal. Isto implicou abolir não só a carne e o peixe, como também todos os derivados (leite, queijo, mel, ovos, etc.), pois também estes alimentos acabam por ser resultado da exploração animal. Num segundo momento, e já sendo vegan, pesquisei mais informações sobre este tipo de alimentação e como afetava o rendimento desportivo e confirmei que tinha feito a escolha mais acertada.
Começas a correr com que idade? E já agora, qual foi a primeira distância?
Vou desconsiderar as duas ou três provas de corta-mato nas quais participei enquanto estudava porque nessa época eu não me dedicava à corrida e apenas as realizei porque estavam mais ou menos enquadradas nas aulas de Educação Física. Recordo perfeitamente a minha primeira corrida. Uns dias antes desse dia teimei comigo mesmo que precisava de voltar a fazer desporto e comecei a pesquisar sobre corrida (o equipamento desportivo mais adequado, um leitor de música para me acompanhar, o trajeto…). Assim, no dia 6 de dezembro de 2009, com umas sapatilhas Nike Pegasus 26+ pretas compradas no dia anterior e com um leitor de música, lá fui eu. A corrida não durou mais do que 20 minutos, mais de metade feitos a caminhar, num percurso de 2,9 quilómetros. Obviamente que cheguei muito desanimado a casa e pensei que não era o desporto ideal para mim. Cerca de duas semanas depois voltei a tentar, fiz o mesmo trajeto, desta vez todo a correr e esse minúsculo progresso foi o suficiente para me cativar para sempre. Tinha eu 24 anos.
Ainda te lembras da primeira prova?
Apesar de correr desde o ano de 2009 a minha primeira prova oficial aconteceu somente 9 anos depois, em 2018… e não foi por iniciativa própria. No natal anterior a minha companheira encarregou-se de me surpreender com uma inscrição na Meia Maratona de Tondela. Foi uma experiência espetacular, no final da prova já estava a pensar na próxima.
De todas as provas ou desafios que participaste, qual foi o mais “duro” e o mais “soft”? E porquê?
Para mim é relativo e vago falar em termos de “duro” ou “soft” para me referir ao desempenho numa prova ou num desafio. Mas assumindo que “duro” significa levar o corpo até muito perto dos limites físico e mental, então não tenho dúvidas que a minha tentativa de percorrer os 738,5 quilómetros da Estrada Nacional 2, onde tive que abandonar ao quilómetro 461, foi até agora o desafio mais difícil de todos. Foi muito frustrante perceber que o corpo já não aguentava continuar em frente apesar da minha mente continuar com todo o foco no destino final. Daqui aprendi uma lição, para mim muito valiosa: reservar um treino de corrida semanal para aperfeiçoar o equilíbrio entre a capacidade física e o desempenho mental, procurando respirar em consciência e de forma sincronizada com os movimentos corporais. Em relação ao desafio ou prova menos “duro” foi, talvez, no Campeonato Distrital de Cross Longo deste ano de 2020, pois no final senti que não estava suficientemente cansado e poderia ter dado muito mais.

Vivemos tempos diferentes devido à pandemia, como lidaste com o isolamento social? Os treinos? A alteração de rotinas?
Antes de mais esta pandemia teve efeitos trágicos nas vidas de muitas famílias a nível nacional e mundial. O número de contágios e vítimas, que continuam a aumentar diariamente, é impactante. Dito isto, o isolamento social e o confinamento social tornaram-se uma medida de exceção que muitos países tiveram que adotar, entre os quais o nosso. No meu caso limitei-me a aceitar as novas regras de conduta social, o que implicou não correr fora de casa durante 45 dias. Assim, abandonei o plano de treinos e apenas corri numa passadeira muito esporadicamente. Pelas minhas contas foram 7 corridas em 45 dias, o que me fez perder toda a condição física que tinha até ao confinamento. Também ganhei algum peso. Sei que muitos corredores continuaram a praticar exercícios físicos no exterior, em alguns casos em grupo, quando a pandemia mais fortemente nos atingia, o que mais não foi do que uma falta de solidariedade por todos aqueles forçados ao confinamento.
Pode parecer fácil, mas correr uma Maratona abaixo das 3 horas não é para todos (pelo menos para mim), queres contar-nos como te preparaste para a prova rainha de Lisboa?
Para ser honesto não estava à espera de conseguir esse tempo abaixo das 3 horas. Fui para essa prova apenas com o objetivo de bater o meu recorde pessoal até então (3:15:05). A minha preparação foi bastante simples, treinos de qualidade duas vezes por semana e corridas longas ao fim de semana, com um dia semanal para descansar. Este tipo de treino está massificado e é bastante popular. A única diferença da prova de Lisboa para as duas anteriores em que participei (Maratona da Europa, Aveiro e Maratona do Porto), foi um maior foco na economia de corrida, treinando a posição dos braços procurando mantê-los mais junto ao corpo, e a eficácia na aterragem do pé no solo, focando uma passada mais fluída e natural. Também ajudaram bastante as condições climatéricas, pois a temperatura estava próxima do ideal e praticamente não existia vento. Assim, lá consegui tangencialmente um sub-3, com um tempo de 2:59:33.
Quais os teus objetivos desportivos a curto prazo? Tens alguma meta definida?
No curto-médio prazo o meu objetivo é regressar ao quilómetro 0 da Estrada Nacional 2 em Chaves e voltar a tentar percorrer todo o seu trajeto até Faro no prazo de 7 dias. É um desafio pessoal do qual não me consigo desligar e não descansarei até conseguir… É a este desafio que vou buscar toda a minha motivação para continuar a treinar, a correr, a transpirar, a procurar a melhor forma possível para um dia voltar a enfrentar todos aqueles quilómetros. Por outro lado, no longo prazo… e como a vida é alimentada pela esperança, ficaria bastante realizado ao representar a seleção portuguesa em eventos de corrida de longa distância…
Em todos os desafios que participaste, estou-me a lembrar das duas edições que correste as 24 horas de Viseu, ou a tua aventura até ao KM461 da mítica N2, tiveste algum apoio financeiro? Ou foste por tua conta e risco?
Nunca tive qualquer patrocínio, suportei sempre todos os custos das minhas provas, desafios e aventuras. É fácil entender que no mundo da corrida não existe abundância de patrocínios, e os que existem são canalizados de duas formas: uma parte dos fundos vai para a elite e a alta competição; a outra parte é orientada para os influencers digitais, pessoas com milhares de seguidores e de visualizações que dão umas corridas pontualmente com o material que as marcas lhes oferecem. Então, e como esta é a realidade, para atingir o nível que os patrocínios exigem a solução passa por treinar, treinar e treinar diariamente para evoluir. Ou então aumentar os números digitais, o que eu dispenso.
Qual é o teu critério para a escolha do material desportivo, roupa, sapatilhas, etc.? Queres dar-nos alguma dica?
A minha escolha de material desportivo é um pesadelo (risos)… A começar na parte do vestuário, já me aconteceu, por exemplo, demorar quase 2 meses a encontrar os calções mais adequados para usar numa prova longa como a maratona. Definitivamente não sou alguém que pretende uma t-shirt para correr e compra a primeira que aparece. Antes de comprar faço uma pesquisa exaustiva e uma comparação dos materiais, do corte, do tamanho, do estilo… Isto apenas referindo-me ao vestuário. Quando a questão é o calçado então a pesquisa é ainda mais profunda, até porque uma escolha errada do tipo de calçado pode ter consequências reais na saúde do atleta. O mercado das sapatilhas de corrida é vasto, e nele existem as sapatilhas mais adequadas para cada tipo de corredor em função do peso, da distância, do tipo de passada. O meu conselho é que não comprem a primeira sapatilha de corrida que aparecer.
Ouvi dizer que não gostas das subidas!! É verdade (risos)?
Não tenho vergonha em admitir: detesto subidas… Não consigo encontrar uma explicação clara para esta minha aversão a inclinações positivas, mas a realidade é que me desmotivam muito. Em boa medida será porque o corpo ainda hoje me falha quando tenho que as enfrentar. Vivo numa zona onde não existem declives muito acentuados e as minhas corridas foram durante anos realizadas com desníveis mínimos. O facto de apenas ter participado numa única prova de trail até agora explica bastante da minha relação com este tipo de inclinações. Contudo, e como o treino de rampas é quase obrigação para uma preparação total, procuro encará-las apenas como mais um obstáculo para ultrapassar.
Vamos ter David Cardoso durante as próximas temporadas na nossa Academia de Veteranos? Na tua opinião, achas que a Academia oferece os meios necessários para a tua evolução? Alguma sugestão?
Neste momento estou exatamente como gosto de estar. Inserido num grupo fantástico de corredores que procuram a superação semanalmente, diariamente. Desde que me incorporei verifiquei uma evolução muito grande no meu desempenho, e espero poder continuar a fazer parte de um clube com tanta história e com mais de meio século de existência. Mas o futuro é algo que não pode ser planeado e previsto. Sabendo das dificuldades que os clubes regionais enfrentam para competir contra os grandes clubes nacionais em termos financeiros, é compreensível que algumas oportunidades não possam ser desperdiçadas por atletas interessados em dar um salto evolutivo.
Uma breve definição por favor de Ultramaratonista?
Atleta que, após longas horas num esforço físico contínuo, mantem a capacidade mental para lidar com todos os obstáculos previstos e imprevistos que surgem a cada momento.
Para concluir, em que pensas quando fazes 162km a correr durante 24h?
Correr durante 24 horas é desgastante para a mente. Numa prova tão longa é preciso aceitar que existirão momentos bons e momentos maus. Chegam fases em que a mente diz para o corpo parar, noutras o corpo ganha o poder e a mente é submetida à vontade deste. Nas duas provas de 24 horas em que participei apenas consegui manter algum equilíbrio (físico, mental, emocional) até cerca das 6-7 horas de corrida pensando na alimentação a tomar, focando na ingestão de líquidos e calculando as paragens estratégicas para descansar. Mas depois, com o peso das horas, o percurso até ao fim da prova é completado pensando nas dores, na privação de sono, na fome, na sede, no frio, no calor, na vontade de abandonar… É realmente difícil. Desengane-se quem pensa que para concluir uma prova de 24 horas deve apenas treinar a capacidade física… se assim o planear terá uma grande surpresa.
Obrigado David! És uma inspiração para todos aqui na Academia de Veteranos, muitas felicidades para os teus futuros projetos e votos de muitos sucessos pessoais assim como desportivos. Grande abraço!
Agradeço a oportunidade. Isto é mesmo uma grande ideia. No fim alguém tem que te entrevistar e eu ofereço-me (risos).
Obrigado David! Depois de “rodar” a todos (risos)!




